Batman – A Piada Mortal (1988)

Por: Alex The Kid

Em 1999 eu finalmente tive em mãos um exemplar de Batman – A Piada Mortal. O clássico fora republicado pela editora Abril e, mesmo sendo um leitor assíduo do Morcego, eu ainda não tinha apreciado a história (publicada originalmente em 1988). Dentro dos acontecimentos presentes na graphic novel, o único do qual eu tinha conhecimento era justamente o mais chocante de todos: Barbara Gordon havia sido aleijada pelo Coringa. Mas eu não sabia sob quais circunstâncias o violento ataque havia ocorrido.

Como fui ler a revista apenas em 1999, não pude escapar do choque comparativo com o material da época. A diferença no traço abismal! Estávamos numa fase em que artes exageradas como as de Jim Lee, Todd McFarlane e Rob Liefeld tomavam os quadrinhos. E era justamente com esse tipo de HQ que eu estava acostumado.

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A HQ foi concebida por dois astros dos quadrinhos: Brian Bolland (esquerda) e Alan Moore (direita).

A percepção que eu tenho de A Piada Mortal nos dias atuais é um pouquinho mais técnica (mas ainda amadora). Na época eu achava Brian Bolland, artista de A Piada Mortal, um quadrinista mediano. Hoje, o considero brilhante. As expressões faciais impostas aos rostos de seus personagens são perfeitas e os movimentos são retratados de forma que o leitor conecte sua imaginação ao que, de fato, está acontecendo no quadrinho. Eu já sinto essa característica nas primeiras páginas da HQ. Quando Batman chega ao Asilo Arkham e é recebido pelos guardas, o primeiro mostra-se impactado pela figura do Morcego. Já o segundo, presta continência para o herói, num gesto de respeito e de orgulho por interagir com o Batman.

Na época de produção de Batman – A Piada Mortal, Bolland atrasou demais a entrega do trabalho. Por conta disso, o quadrinista deixou de fazer a colorização da obra, o que só pudemos ter acesso recentemente, num relançamento comemorativo. De fato, eu aprecio mais o trabalho de Bolland nas cores do que o do colorista original.

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John Higgins coloriu os quadros à esquerda e Bolland trabalhou na pintura dos das direita.

O roteiro de A Piada Mortal é do mestre Alan Moore, que já deu declarações onde afirma considerar seu trabalho na HQ raso. O autor afirma que deveria ter explorado mais a psique de Batman e do Coringa, que são personagens extremamente densos. De fato, trata-se de uma revista com menos de 50 páginas e seus acontecimentos são tão fortes que, sem sombra de dúvidas, caberiam numa minissérie com umas 10 edições. Não dá pra discordar de Alan Moore. Mesmo quando ele critica um trabalho competente (feito por ele mesmo).

A trama traz mais uma fuga do Coringa. Ele escapou do Asilo Arkham e iniciou uma missão que visava provar que bastava um dia ruim para que qualquer pessoa enlouquecesse. A sua cobaia seria justamente o Comissário Gordon e para isso, Alan Moore fez com que o vilão cometesse uma atrocidade que mesmo décadas depois de escrita, ainda choca leitores: O Coringa acerta um tiro na coluna da filha do Comissário Gordon, deixando-a paralítica. Mas a crueldade do vilão não para aí. Ele despe Bárbara Gordon enquanto seu pai é espancado e, supostamente, a violenta. Não bastando, o Coringa fotografa sua vítima, apresentando as imagens ao Comissário Gordon, enquanto o tortura num parque de diversões desativado.

É mais que óbvio que o ataque do Palhaço do Crime chega rapidamente ao Batman, que sai em busca de Gordon.

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O Coringa trata a máxima do “dia ruim” como o estopim para a transformação de uma pessoa e tenta fazer com que o Comissário Gordon enlouqueça.

Toda essa explosão de violência, seria vazia se a história não tivesse momentos extremamente profundos, como a ida do Batman ao Asilo Arkham visando se entender de uma vez por todas com o Coringa, antes que um mate o outro. Consta também na HQ, a origem do Coringa adaptada após o reboot de Crise nas Infinitas Terras, retratando o vilão como um comediante frustrado, porém não nomeado por Alan Moore. O Personagem passa por dificuldades financeiras que o forçam a tomar atitudes drásticas. E uma série de eventos trágicos, resumidos a “um dia ruim”, fazem com que o Coringa surja.

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O vilão conhecido como Capuz Vermelho era, originalmente, vítima de outros criminosos que usavam seu uniforme para por nele a culpa por seus crimes. Originalmente, o Coringa havia sido um desses criminosos. Alan Moore replicou a ideia em A Piada Mortal.

Como eu disse acima, as consequências dos fatos ocorridos na HQ são expressivas. O leitor finalmente pode ter uma ideia da origem do Coringa e a Batgirl deixa de existir. Só que a DC Comics não aplicaria um fim abrupto à personagem e pouco antes do lançamento de Batman – A Piada Mortal, a editora tratou de apresentar a origem da heroína na era do Pós-Crise, bem como a sua aposentadoria. Essa história foi apresentada no Brasil pela editora Abril na revista Liga da Justiça Internacional nº 30 (junho de 1991). Ou seja, quando o Coringa atira em Barbara Gordon, a mesma já não atuava mais como Batgirl.

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A última aventura da Batgirl de Barbara Gordon, já tratava de sua aposentadoria como heroína antes mesmo de A Piada Mortal.

O fato interessante envolvendo esse incidente é que o trio de artistas John Ostrander, Kim Yale e Luke McDonnell, acabou se aproveitando da situação da personagem para criar a interessantíssima Oráculo (personagem da qual falarei em breve).

Recentemente o autor de A Piada Mortal, Alan Moore, deu uma entrevista dizendo que ao fim da história, o Batman quebra o pescoço do Coringa e, consequentemente, o mata. Esse ato faria jus ao título da HQ, pois a história se encerra com o Coringa contando uma piada ao Batman, os dois riem e Batman então coloca a mão no pescoço do criminoso. Essa seria a “piada mortal”. A piada que fez o Coringa morrer.

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Segundo Alan Moore, a piada contada pelo Coringa (que é um texto do comediante Red Skelton) é seu último ato. Batman o mataria na sequência, quebrando seu pescoço.

Talvez essa liberdade que Alan Moore recebeu, tenha ocorrido por conta de que os planos iniciais para A Piada Mortal, eram de uma HQ fora da cronologia oficial do Batman, como O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Ocorre que a DC acabou optando por tornar a história canônica.

Há até hoje especulações envolvendo uma continuação, que certamente não ocorreriam pelas mãos de Alan Moore, já que o autor tem a DC como desafeta. Bolland também dificilmente participaria, pois sua fama de estourar prazos o põe em xeque. Enquanto se debate uma continuação da HQ, em 2016 saiu uma adaptação em longa animado.

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As expressões faciais criadas por Bolland são impressionantes.

Concluindo, Batman – A Piada Mortal é uma graphic novel que figura facilmente entre listas de leituras fundamentais para um fã de quadrinhos. Ela é leve por um lado e densa por outro, já que possui poucos diálogos, mas acontecimento profundos e violentos. Sua arte é precisa e nos momentos “mudos”, consegue fazer o leitor mergulhar na história. Como eu disse acima, quisera eu que fosse uma minissérie em 10 capítulos. Merece.

P.S. 1 – O roteiro completo de Batman – A Piada Mortal, está disponibilizado nesse endereço: https://killingjokescript.tumblr.com/

P.S. 2 – Para se situar em linhas temporais, títulos e personagens dos quadrinhos, recomendo procurar pelo site do Guia dos Quadrinhos.

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