Superman III – 1983

Por: Alex The Kid

 

A trama de Superman III não dá a entender quanto tempo se passou desde o último longa, mas isso perde a importância se levarmos em conta que os filmes têm praticamente nenhuma ligação direta. Em Superman III, os inimigos são diferentes e justamente por isso, o Homem de Aço enfrenta perigos diversos dos longas anteriores.

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O Superman retorna para um terceiro longa esquecível, mas ainda vivido pelo seu intérprete mais icônico: Christopher Reeve.

As mudanças podem ser vistas de cara, onde a abertura clássica dos dois primeiros filmes foi substituída por uma introdução do vagabundo e trambiqueiro Gus Gorman (Richard Pryor), que vem enrolando o Seguro Social há 36 semanas e acaba tendo seu benefício negado por não se manter em nenhum emprego.

Gorman encontra num anúncio de uma caixa de fósforos, a oportunidade de emprego numa empresa de informática. A questão é que o vilão acaba se transformando num hacker sem ter nenhuma comprovação ao público de que o mesmo tinha alguma experiência prévia com computadores.

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Gus Gorman é descoberto pelo vilão Ross Webster.

O fato é que Gorman descobre uma brecha no sistema operacional da empresa onde trabalha e desvia para si mesmo, uma quantidade absurda de frações de centavos de dólar. Tal ato, atrai a atenção do dono da empresa, Ross Webster (Robert Vaughn), que vê em Gorman um talento essencial para aumentar seus ganhos utilizando-se de falcatruas e sabotagens operadas por computadores.

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Os vilões tentam replicar a kryptonita, mas falham em matar o Superman. No entanto, a kryptonita manufaturada causa um transtorno de personalidade no Homem de Aço.

Obviamente, no caminho dos vilões está o Superman (Christopher Reeve), que impede um ataque comandado por satélite à uma plantação de café na Colômbia (que não negociava com Webster). Diante disso, os vilões decidem se livrar do herói produzindo uma espécie de kryptonita manufaturada. Porém, o minério alienígena não possui todos os seus elementos constantes na nossa tabela periódica e Gus Gorman acaba inserindo um elemento qualquer na fórmula da kryptonita, e seus efeitos no Superman acabam sendo alterados, criando uma forte mudança na personalidade do herói, que se torna mau, uma espécie de Superman Bizarro (como o vilão tradicional dos quadrinhos).

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O trio de vilões nada ameaçadores: Ross Webster, Vera (Annie Ross) e Lorelei (Pamela Stephenson).

A partir desse momento, o roteiro dá um norte no desafio do Azulão no filme. Mas a história, escrita pelo casal David e Leslie Newman é embolada, com personagens jogados e núcleos mal trabalhados. Originalmente, o texto havia sido desenvolvido por Ilya Salkind e contaria com os vilões Brainiac e Sr. Mxyzptlk, além da participação da Supergirl. Porém os planos foram alterados e os Newman deram um tratamento agressivo no roteiro.

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Da esquerda para direita, o produtor Ilya Salkind, o diretor Richard Lester e o produtor Pierre Spengler. Ao fundo, uma foto de Clark Kent ainda jovem, na época de escola. A foto de Clark, interpretado por Christopher Reeve, desconsidera a versão jovem do herói no primeiro longa, interpretado por Jeff East.

É de responsabilidade do casal Newman, Superman III ser uma comédia. Essa ideia já era debatida desde o primeiro longa, mas foi por água abaixo graças ao diretor Richard Donner, que em conjunto com Tom Mankiewicz, desenvolveram um filme maduro. Entretanto, com a ausência de Donner nas produções das sequências, os Newman ganharam força e conseguiram dar sua visão ao herói em conjunto com o diretor Richard Lester, que havia assumido a direção da franquia do Homem de Aço após a demissão de Donner.

Esse novo cenário na franquia de filmes do Superman demonstra uma expressiva queda de qualidade na equipe criativa. Nomes importantes foram substituídos, como a do Maestro John Williams, criador da trilha sonora original do Superman, que teve seu lugar ocupado por Ken Thorne, que também é um artista excelente e inclusive possui uma estatueta do Oscar por seu trabalho em Um Escravo das Arábias em Roma (1966). O problema é que Thorne não teve seu melhor momento em Superman III e a trilha sonora do filme é sem sal e não traz nenhuma empolgação, característica bem diferente do longa original.

Mas as alterações não foram sentidas apenas na trilha sonora do novo filme. O maior inimigo do Superman, Lex Luthor (Gene Hackman) e seu interesse amoroso Lois Lane (Margot Kidder) não possuem nenhuma relevância no longa. O primeiro está completamente ausente e sequer é citado, enquanto a segunda teve sua participação reduzida a uma simples ponta. Após o lançamento de Superman II – A Aventura Continua, Kidder chegou a criticar publicamente os Salkind.

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Os produtores Ilya e Alexander Salkind, ao lado de Christopher Reeve.

A explicação para as ausências de Hackman e Kidder se dá pela insatisfação de parte do elenco com os rumos tomados pela franquia. A verdade é que a produção teve problemas desde o primeiro filme. Os Salkind, produtores dos longas, se desentenderam com uma das peças determinantes para o sucesso do Superman no cinema: O diretor Richard Donner, que fora demitido logo após o lançamento do primeiro filme.

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A equipe criativa troca o interesse amoroso do Superman, causando uma lacuna sem sentido na franquia. Lois lane sai e em seu lugar entra Lana Lang.

A maneira encontrada pela equipe criativa para dar um novo interesse amoroso ao Superman é minimamente infantil. Lois sai de férias para as Bermudas enquanto Clark pede autorização a Perry White (Jackie Cooper) para fazer uma matéria para o Planeta Diário sobre a reunião de sua turma de escola. E em Smallville, reencontra sua paixão de colégio, Lana Lang (Annette O’Toole).

Lana é apresentada de forma confusa e atabalhoada. A personagem é o oposto de Lois e, de acordo com os filmes anteriores, não faz o menor sentido o Superman se interessar por outra mulher após quase abdicar de tudo pela repórter.

Esses furos da equipe criativa não chegam a ser o pior do filme. A comédia forçada e sem graça, unida a situações absurdas impostas ao Homem de Aço, são a ruína de Superman III.

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O Superman possui muito tempo livre e acaba concordando em aparecer na festa de aniversário do filho de Lana Lang.

O longa se perde tanto que há um momento em que não para saber se estamos assistindo um filme do Superman ou um desenho do Pernalonga. Situações absurdas como o Azulão se comprometer a ir no aniversário do filho de Lana Lang, que acaba se transformando num evento gigantesco em Smallville, são comuns. É neste evento que o Superman recebe o incrível Livro de Receitas das Senhoras de Smallville.

Outros diversos momentos de comédia forçada com Richard Pryor transformam o filme numa galhofa, mas nenhum deles supera o maior absurdo já registrado em uma adaptação de super-heróis dos quadrinhos para os cinemas, que são os avisos luminosos de um sinal de trânsito saindo no braço. Um tipo de cena que só se vê nos piores filmes de comédia pastelão.

A única coisa interessante em Superman III é uma cena de confronto entre o herói e sua versão bizarra. Segundo o próprio intérprete do Superman, Christopher Reeve, o Homem de Aço do mal, sente os efeitos incômodos de Clark Kent em sua mente. E isso culmina na luta das personalidades no ferro-velho. Assistir uma luta entre o Superman, que sofreu os efeitos da kryptonita manufaturada, e Clark Kent foi bem legal.

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Superman III traz um conjunto de situações absurtas que parece inesgotável, como o Superman, sob efeito da kryptonita manufaturada, tomando uísque tranquilamente num bar.

O Superman maligno demonstra a qualidade cênica de Reeve. Foi impressionante vê-lo caracterizado como o Homem de Aço, porém agindo de forma maligna. A mudança na expressão facial do herói convence de que a bondade não está presente ali.

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As personalidades do Superman entram em confronto.

Mas mesmo com o esforço de Reeve, o roteiro e a direção de Superman III não ajudam, e cenas dispensáveis como a do Homem de Aço consertando a Torre de Pisa e apagando a Tocha Olímpica, foram inseridas no filme.

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O super-computador construído por Gus Gorman possui um sistema de mísseis teleguiados que os vilões operam como se fosse um videogame (inclusive possui pontuação). Isso mostra o interesse máximo da produção do filme que transformou a franquia em comércio. O jogo, que sairia para o Atari 5200, nunca chegou a ser lançado.

Apesar de haver algumas curiosidades, como o retorno de personagens que apareceram rapidamente no primeiro longa como Lana Lang e Brad (Gavan O’Herlihy) e da menção à morte de Martha Kent, o filme não adiciona nada à franquia em termos de história e o fato é que Superman III é um erro. Um filme puramente comercial que desmoraliza o excelente trabalho feito no primeiro longa do Homem de Aço. Sua comédia é exagerada e a presença de Richard Pryor, um dos maiores comediantes que já existiu, não acrescenta nada em termos de qualidade. Sua comédia inserida em uma adaptação de super-herói dos quadrinhos, não vingou. E a culpa não é dele.

 

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