A Morte do Superman

Por: Alex The Kid

(Há poucos anos, as publicações nacionais se refernciavam ao personagem Superman em uma tradução literal: Super-Homem. O nome original passou a ser utilizado no Brasil, na virada do século.)

Em dezembro de 1993, meu pai atualizou a minha mesada e com um sorriso no rosto, eu parti para a banca de jornal. Lembro de ter comprado três revistas diferentes de uma só vez e que estão comigo até hoje: A Morte do Super-Homem, Super-Powers nº 28 e Homem-Aranha Anual nº 3.

Com essa trinca de gibis, voltei para casa e coloquei a leitura em dia imediatamente. É claro que comecei com a revista intitulada A Morte do Super-Homem. Tratava-se de um gibi especial, com capa dura e arte metalizada, papel especial (e muito bem colorido para a época) e lombada quadrada. A edição tinha 164 páginas com um compilado de seis capítulos. Acho que foi um dos melhores trabalhos da Editora Abril até então. Quiçá o melhor! Eu nunca tivera um exemplar como a edição nacional de A Morte do Super-Homem. Eu, de fato, sabia que estava com algo especial nas mãos.

legiao_l860hESLMrgXKFOB3WaTm7JvAq1kNQZPytuiwcYp2f
Os acontecimentos da Morte do Super-Homem ganharam espaços em todas as mídias ao redor do globo.

Logo na primeira página do gibi há um aviso da Editora Abril. Um para os leitores das revistas do Super-Homem e outro para quem estava começando a ler ou que se manteve afastado por um tempo. A necessidade do comunicado da editora, se deu por conta do atraso que existia entre o lançamento das edições americanas e os lançamentos nacionais. A Morte do Super-Homem havia sido adiantada no Brasil. Personagens que os leitores não conheciam e situações que pareciam absurdas, de fato me impressionaram durante a leitura (Para entender essas diferenças, no tocante à Liga, leia as nossas matérias sobre a reformulação da equipe por Dan Jurgens e Gerry Jones).

O prelúdio da edição mostra a chegada de um monstro e a consequente destruição aplicada pela criatura. O roteiro simples de Louise Simonson e a arte polêmica de John Bogdanove, são o suficiente para mostrar que o monstro é a maldade encarnada.

O primeiro capítulo do Gibi, intitulado Saldos da Derrota, é desconcertante. Nele a equipe coesa da Liga da Justiça, já com forte influência do Super-Homem, atende um chamado de socorro. O monstro estava destruindo tudo em seu caminho. Enquanto a Liga parte para o socorro, o Super-Homem atende uma entrevista em benefício de escolas norte-americanas.

unEL1Cq
A Liga é destroçada e o Besouro Azul sai de cena.

O que o Homem de Aço não fazia ideia, é que o monstro estava destroçando a Liga (com uma mão amarrada nas costas, literalmente). O Super recebe a informação quando a entrevista é interrompida para dar lugar a um plantão noticiário, falando justamente que seus colegas estão em apuros. O Super-Homem parte para se juntar à sua equipe.

Nesse primeiro capítulo, o desconforto já tomou conta de mim. Um dos meus super-heróis favoritos da época, o Besouro Azul (Ted Kord), foi completamente espancado pelo monstro, apelidado pelo Gladiador Dourado de Apocalypse. O Besouro entrou em coma. Antes disso, o Lanterna Amarelo Guy Gardner, também sofreu um revés bruto e fica temporariamente fora de ação.

A arte de Dan Jurgens (que tb assina o argumento do capítulo 1) demonstra em seu traço os ferimentos sofridos pelos membros da Liga de forma brutal e chocante. Eu nunca tinha visto nada parecido. O Besouro Azul e Guy Gardner, dois heróis que eu acompanhava nas revistas Liga da Justiça Internacional, estavam aniquilados.

O Super chega na batalha resgatando o Gladiador Dourado, que havia sido arremessado a quilômetros de distância do local do confronto. A bela arte de Dan Jurgens na página final do capítulo 1, mostra o Super-Homem, um super-herói confiante e o Gladiador Dourado, um justiceiro assustado.

f85425864431a63cc9-49
O artista Dan Jurgens sabe como desenhar os heróis em poses marcantes. Observe a imponência do Super-Homem.

Mesmo sabendo do final da história, eu estava confiante no Super-Homem, e dei sequência no gibi. O segundo capítulo chama-se Contagem Regressiva Para O Apocalypse. Mais uma vez, Dan Jurgens fica à frente do roteiro e da arte. A primeira página mostra o Besouro Azul inconsciente. Gelo e Máxima estão com o herói tombado e Gelo, num ato de grande coragem, propõe que Máxima leve o Besouro ao hospital enquanto ela mesmo vai atrás do monstro. Máxima parte e Gelo encontra o Apolalypse.

O monstro derruba a heroína sem nenhuma dificuldade e ataca a casa de uma família. O Super-Homem reagrupa a Liga e prepara uma ofensiva. Na luta, Fogo, O Gladiador Dourado, Bloodwynd e Guy Gardner, que já havia sido espancado, ficam completamente fora de combate e, como Máxima partiu para levar o Besouro Azul para o hospital, a Liga ficou reduzida ao Super-Homem. O Apocalypse parte em retirada com o Super na cola dele. Só que, na casa destruída, um garoto está clamando por ajuda. E a Liga não pode ajudar.

Com o fim do segundo capítulo, fica claro que as coisas vão piorando de forma crescente. Se a intenção da equipe criativa da DC Comics, era deixar o leitor angustiado, eles conseguiram. E foi com profunda apreensão, sentado na mesa da sala da minha mãe, que eu comecei a leitura do terceiro capítulo.

5667601-doomsday+gets+attacked
A Liga da Justiça não consegue derrotar o monstro.

Sob Fogo Cerrado, tem roteiro de Jerry Ordway e arte do competente Tom Grummett. Logo no início, uma cena interessante acontece: Após derrubar provisoriamente o Apocalypse, o Super retorna ao local inicial da luta para resgatar a família que teve a casa destruída e providenciar o resgate médico da Liga. Quando Guy Gardner está na maca, o mesmo segura a capa do Super-Homem e diz: “Pega duro Azulão! Bota esse Apocalypse… no Cemitério…”. Eu não sabia o quão forte era a rivalidade entre Guy Gardner e o Super-Homem, até ler as aventuras da Liga na revista Liga da Justiça e Batman. Essa cena é interessante por mostrar que, apesar da rivalidade, Gardner sempre confiou no Super-Homem.

Jerry Ordway mostra, em seu capítulo, como a luta contra o Apocalypse está refletindo nos personagens coadjuvantes do Super-Homem. Lois, Jimmy, Lex Luthor e Super-Moça já estão cientes da batalha. Os dois últimos são os responsáveis por uma visão bem impactante para mim, ao ler a revista pela primeira vez. Primeiro, eu não fazia ideia de que havia uma Super-Moça no Univeso DC Pós-Crise. Segundo, o que ela estava fazendo com o Lex Luthor, que tem cabelo comprido no lugar de ser completamente calvo? Realmente, o delay entre nossas publicações e as americanas era grande.

1477769-vortex_3
Ver a Super-Moça em clima de romance com um Lex Luthor cabeludo, foi perturbador.

O capítulo três também conta como foi a chegada de Máxima para ajudar na luta contra Apocalypse. A ex-regente de Almerac adora o confronto, mas tanto ela, quanto o Super, são derrubados numa explosão e o Monstro foge. Um detalhe interessante é que neste capítulo também é informada a contagem de mortos até então. São trinta vítimas.

A essa altura, tremendo na base, eu dei sequência no capítulo quatro, intitulado Apocalypse está chegando. O argumentista Roger Stern passa a efetiva ideia de que, por mais que o Super-Homem lute, Apocalypse não recua e não se cansa. A luta chega a um ponto em que o Super já demonstra exaustão e o monstro começa a se aproximar de Metrópolis. Uma segunda coisa que fica clara é que a personalidade desse Lex Luthor cabeludo, se parece muito com a do Lex Luthor no início da reformulação do Super-Homem por John Byrne. Ele não me enganou nem por um segundo.

O desenhista deste capítulo é Jackson Guice, que não me agrada, mas não chega a comprometer a arte do arco de histórias. Eu só aprecio o traço do artista quando ele faz closes dos personagens.

Death-of-Superman-Lois-Glasses
Lois e Jimmy por Jackson Guice.

O quinto capítulo da trama chama-se O Dia do Apocalypse. Com roteiro de Louise Simonson e arte de Jon Bogdanove. Este é o penúltimo capítulo do arco. Apocalypse está cada vez mais próximo de Metrópolis e o mundo inteiro já sabe da luta campal nos EUA. Simonson traz o monstro ao Submundo de Metrópolis, onde estão muitos refugiados do Projeto Cadmus.

O roteiro também mostra a reação dos pais do Super-Homem à luta e ainda a total incapacidade que alguns heróis, como Guardião e Dubbilex, têm de ajudar o Super. Até alguns amigos do herói tentam operar em seu auxílio, mas nada reduz o poder de destruição de Apocalypse.

Neste penúltimo capítulo, as cenas da luta entre o Super-Homem e Apocalypse, atingem um nível de violência grosseiro. Apocalypse chega a perfurar a barriga do Homem de Aço, fazendo com que saia um jato de sangue do ferimento. Eu tinha 13 anos e estava vendo o maior super-herói da cultura pop ser espancado brutalmente.

Death_of_Superman_Jon-Bogdanove
A brutalidade das lutas, com o Super-Homem sangrando, é chocante até hoje.

Ao chegar no último capítulo, chamado Apocalypse e com arte e roteiro de Dan Jurgens, eu já sentia como as coisas estavam feias. E, acredite, eu nunca tive uma imersão tão poderosa numa revista em quadrinhos. A preocupação tomava conta da minha mente enquanto eu virava as páginas do meu gibi.

Este capítulo mostra apenas uma arte a cada página. Dan Jurgens se aplicou nisso. Que artista competente! O argumento chega a ser simplório, pois é mais um fechamento de um arco, com uma explosão gráfica, do que outra coisa qualquer.

1182114-death_of_superman_tpb_1611
O Super-Homem morre, mas ele detém a criatura e salva o mundo.

Porém, como eu disse acima, a imersão era completa.

Eu soube exatamente o que eu estava fazendo quando eventos que abalaram o mundo aconteceram. Sei onde eu estava quando derrubaram as Torres Gêmeas, sei onde eu estava quando o Ayrton Senna morreu e eu sei onde eu estava quando li A Morte do Super-Homem pela primeira vez.

a-morte-do-superman
Ver o Super-Homem morto é, até os dias de hoje, o evento mais chocante dos quadrinhos pra mim.

Foi em dezembro de 1993, no Rio de Janeiro, Bairro da Tijuca. Na casa da minha mãe. Na antiga mesa redonda de madeira dela.

Os roteiristas envolvidos na morte do Super-Homem, chefiados pelo editor da DC, Mike Carlin, não precisaram elaborar uma grande trama. A verdade é que a história é extremamente rasa. Uma criatura super-poderosa, que ninguém conhece ou sabe de onde veio, começa a destruir tudo em seu caminho e muito convenientemente, é detida em Metrópolis. Na frente do prédio mais icônico da cidade, o Planeta Diário.

Para criar o monstro, Dan Jurgens consultou Mike Carlin e o desenhou com forte inspiração no Incrível Hulk, da Marvel Comics.

Apesar de nessa época, heróis mais sombrios como Batman, Wolverine, Justiceiro e etc, venderem mais revistas que o Super-Homem, o público soube prestigiar o fim do escoteiro, sendo que a edição americana que finalizou o arco e culminou na morte do herói (Supeman nº 75), vendeu mais de três milhões de cópias só nos Estados Unidos.

ShowImage
A edição americana de A Morte do Super-Homem.

A questão é que, mesmo sendo raso, esse roteiro gerou um dos arcos mais importantes da história das revistas em quadrinhos. A Morte do Super-Homem alavancou as vendas de quadrinhos, que estavam diante de uma profunda crise. A história foi coberta pela mídia especializada e geral, de todo o planeta, pois o Super-Homem, além de um dos maiores ícones da cultura pop global, é também o primeiro super-herói dos quadrinhos.

Sendo assim, mesmo morrendo, o Super-Homem salvou muita gente de perder o emprego, trazendo fôlego para a DC Comics e introduzindo um novo vilão que assusta os leitores até hoje (inclusive ganhando as telas dos cinemas e da TV).

Na época da publicação de A Morte do Super-Homem, o Brasil não tinha uma mídia especializada que trouxesse notícias sobre quadrinhos. E eu fiquei por dolorosos meses achando que o Super-Homem tinha morrido de fato.

Mas, graças a Deus, não foi bem o que aconteceu e eu falarei sobre isso em breve.

 

Anúncios

3 comentários

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s